As
malas feitas olhavam as horas. As mãos conquistam-se mutuamente. Olhares de tenra
saudade encontram-se. Sorrisos ligeiros disfarçam a tristeza. Os corpos
juntam-se. Abraçam-se. Sentem-se. Amam-se. As testas juntam-se, aproximando os olhos
lacrimosos da despedida. Os queixos encaixam nos ombros. Dançam a valsa
silenciosa que os sentimentos despertam. Formam-se laços entrelaçados nas
gargantas, um aperto no estômago. Lágrimas descem, de mãos dadas, pelas faces.
Lábios aproximam-se como hímenes. Beijam-se apaixonadamente. Devoram os últimos
segundos que teimam em correr. A melodia acaba. A hora chega. Amantes
afastam-se forçosamente. Um pega nas
malas, o outro observa. Olham-se uma última vez em nome da incerteza de um novo
reencontro. Aragens frias arrepiam a pele. Lágrimas enchem os olhares trocados.
A porta é aberta. Um vulto infeliz sai, carregado, por esta, fechando-a. O
outro vulto desconsolado corre à janela. Esconde-se nos cortinados brancos. Um
carro acorda. Resmunga. Corre pela rua deixando só aquele vulto solitário,
chorando a nostalgia do momento. Vira-se. Olha o chão escuro atravessado por um
tapete. Havia algo caído. Um postal. Agarrou-o e leu-o. Dizia “ Amo-te João”.
Histórias Sonhadas
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Malvado Despertador
Dez horas da manhã. O despertador tocava teimosamente pela segunda vez. Os meus braços, como o resto do corpo, afundavam, pesados, nos lençóis brancos e perfumados. As minhas pestanas largavam, chorosas, as suas parceiras. Olhei para o tecto. Não o reconheci. Onde estava eu? Olhei de um lado ao outro do quarto. O rosa bebé vindo das paredes tranquilizavam-me. Sentei-me, enrolado, na cama. As macias e delicadas madeiras arrefeciam-me os pés. Olhei para o lado. Dançando em cima do despertador, estava uma doce e repetitiva bailarina de ballet. Nada daquilo me era familiar. Definitivamente. Levantei-me, cambaleando, junto à cama. Dirigi-me à luz que me espreitava, curiosa, pela greta da porta. No exterior do quarto, um lustre cristalino se opunha à minha pessoa. Fiquei ofuscado pela luz brilhante que me atacava os olhos enquanto descia as escadas que abriam os braços à medida que me aproximava da mesa imponente, quase monárquica, deixada na entrada da casa. Procurei algo que me guiasse. Uma luz. Uma voz. Um cheiro. Em vez disso, ouvi um som. Um som de água que escorria infinitamente para um local por mim desconhecido. Segui o som. A curiosidade e a suspeita lutavam em mim. Onde estaria eu? O que faria ali? A porta estava encostada. Decidi entrar. Uma nuvem de vapor quente envolveu o meu aparecimento. Tentei encontrar algo. Aproximei-me da água e, subitamente, que visão de artista! Notei, de costas, uma rapariga. Deusa. Musa. Cabelos longos e escuros. Pele morena pulverizada de dourado. Curvas perfeitas e sedutoras. Quem seria ela? Quem seria aquela Afrodite latina que aparecia daquele quente nevoeiro? A sua perfeição infiltrava-se em mim. Puxava-me tudo o que em mim havia. A voz. Os suores. Os cheiros. O tacto. Deixou-me despido de todos os sentidos, ficando apenas e só focado naquela perfeição, da qual me aproximava. Toquei-lhe nas costas suaves e húmidas. Virou-se. Não me estranhou. Observei-a de novo. As curvas que antes descrevera como perfeitas e sedutoras, triplicaram a sua perfeição e sedução. Olhei-a nos olhos. Tentei obter uma resposta. Mas os seus olhos verdes selvagens calaram-me e os seus lábios carnudos paralisaram-me…Dez horas da manhã. O despertador tocava teimosamente pela segunda vez. Abri os olhos. Observei o quarto. O cor-de-rosa relaxante transformara-se em quadros e posters. O despertador já não suportava uma bailarina, mas sim as inúmeras pancadas que lhe dava, rabugento, todas as manhãs. Da cozinha, ouvia a minha mãe chamar-me. E suspirei por estar em terreno conhecido e rui-me de curiosidade sobre todo aquele sonho. E que sonho!
João D'Hem
quarta-feira, 13 de julho de 2011
A Praia
As ondas massajavam-me os pés. O vento varria-me a cara. As minhas pernas guiavam-me pela fronteira de areal seco e molhado adormecida pelo som relaxante e refrescante do mar. A espuma, provavelmente branca, aproximava-se de mim, pé ante pé, fazendo-me cócegas e correndo para os braços de seu pai, o Mar. Alfredo corria lá longe, libertando-se do stress da cidade. Conseguia ouvir as suas patas rodopiando nas ondas. O seu ladrar feliz colava-me um sorriso na boca. Tínhamos pouco tempo um para o outro… Vivíamos na cidade. E a rotina não variava muito entre o escritório e o nosso apartamento. Não tinha muito tempo para passeá-lo. Ou melhor, ele não tinha muito tempo para me guiar para outros sítios. Decidi sentar-me. Dobrei as pernas, devagar, e apoiei as palmas das mãos na areia decorada com vestígios de conchas. Não se ouvia ninguém. Estava só, naquela praia. Teria eu reservado uma praia privada para aquela tarde, sem o saber? Sabia-me bem, estar ali. O mar é o melhor conselheiro que conheço. Funciona como uma pessoa! Como um irmão mais velho. Que nos acarinha, nos mima, nos abraça… mas que também se zanga connosco. Ao fundo, ouvia quatro pesadas patas a correr na minha direcção. Mantive-me intacta. Sabia quem era e o que ia fazer. Não valia a pena resistir. A personalidade de Alfredo era muito forte. Quando teimava em fazer algo… eu tinha que ceder. Como se tratasse de um negócio. Ele ajudava-me no dia-a-dia e eu alinhava nas brincadeiras dele. Tal como pensava, uma sombra de pelo molhado saltou para o meu colo, derrubando, a minha fraca figura, na areia. Deitou-se, apoiado as suas patas na minha barriga. Colocou a cabeça no meu peito. E pediu-me, em pensamento, que me deixasse levar… que sentisse tudo aquilo que me envolvia. Os sons. Os cheiros. As texturas. As sensações. O vento ia-me cobrindo de areia, como se o areal me abraçasse. Me aquecesse. As gaivotas voavam e pairavam no céu. Conseguia ouvir o bater das suas asas. E certamente observavam-me. Observavam-me e ao Alfredo. Observavam dois seres livres. Dois seres que se libertavam das ameaças dos alheios. Dois seres que viviam como um só, um dia de cada vez…João D'Hem
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Os Silenciosos Barulhos Matinais
Tudo ali parecia calmamente adormecido. Os estrondos do silêncio saltavam de parede João D´hem para AA
quarta-feira, 6 de julho de 2011
O Gato Bonifácio
Ver aquele cenário fazia com que não quisesse viver mais nove vidas.
Fui entrando através daquelas portas nas salas que, agora, me pareciam vazias, despidas, gigantescas. Os cortinados de veludo vermelho dançavam as valsas das almas já desaparecidas. As cadeiras de madeira maciça, onde costumava amolar as minhas unhas, enchiam-se, agora, de um manto branco feito artesanalmente de pó velho e teias de aranha. Das carpetes chegavam odores de outros gatos que vieram, certamente, à procura de ratos também eles sumidos. Os vultos chamavam por mim sentados nos degraus da escada. Não conseguia perceber de quem eram. A minha vista já estava cansada. Prossegui através daquela passadeira vermelha com riscas douradas de tecido inglês, eu acho. Já não me lembro bem. Recordo-me de ter sido elogiada como a mais cara, bela e original da mercadoria trazida de terras londrinas. As minhas patas redondas, idosas e calejadas ficavam desenhadas no fundo encarnado e empoeirado da carpete.
Sentei-me na varanda principal. Como eu gostava daquela varanda! Era antiga, romântica, bela, segura. Era nela que passava as noites de Janeiro e Fevereiro enquanto observava as madamesde cauda escovada e arrebitada que desfilavam estupendamente pelos muros velhos e floridos daquelas quintarolas e quintais, fazendo as delícias dos olhos de outros D. Bonifácios de Calatrava como eu.
Vista de cima aquela vivenda era ainda mais sonâmbula. As árvores adormecidas apoiavam os seus pescoços velhos e secos nas telhas despedaçadas da casa, destapando seus pés calçados sob as lajes feridas e golpeadas do pátio. As roseiras abriam os braços aos céus zangados e cinzentos, trepando pelas paredes descascadas de cor.
Voltei-me para dentro. Entrei no salão. Parecia uma sala fantasma, acabada de sair de um romance trágico como aqueles que o dono me lia e queria que eu escutasse, mesmo que fosse com um olho aberto e outro conquistado por um sono aterrador. Junto à chaminé lá estava a minha alcofa. O tecido roxo vivo estava tão velho quanto eu. Também lhe tinham crescido alguns cabelos brancos. Que confortável era aquela alcofa! Quando me ofereceram aquele tecido de bom descanso, nele descobri gravado o meu nome, Bonifácio. Acho que o dono sempre entendeu o ar nada satisfeito que eu fazia quando me chamavam pelo nome. Por isso tentou emendar o seu erro ao longo dos anos.
A luz entrava agora pelas cortinas esfarrapadas, anunciando a sua demorada extinção. Deitei-me, por fim, na minha alcofa. Pressenti algo à minha volta. Vozes. Movimentos. Energias. Não me apeteceu abrir os olhos. Tudo estava novo. A sala nova, nobre, limpa e bela que conhecera voltara. Levantei-me da alcofa. Dirigi-me, como sempre, à cozinha, mas desta vez de uma forma diferente. Estava a flutuar! Eu estava a flutuar! Tudo à minha volta estava ressuscitado. Eu estava um D. Bonifácio de Calatrava de novo. As madames chamavam-me lá fora. Os pássaros já não gozavam comigo e, ao fundo da sala, dois olhos acompanhados de uma barba sorridente admiravam-me ao longe.
João D'Hem
O desaparecimento do mundo
Durante um dos meus sonhos, comecei a ouvir uns ruídos. Seria imaginação, loucura ou verdade? Decidi abrir os olhos. De repente senti tremores no ferro que me sustentava. Aí pensei que era o meu fim. Percebi que estava a ser puxado, mas preferi fechar os olhos.
Quando senti terra sob as minhas mãos, abri os olhos e o meu sorriso surgiu de imediato no momento em que percebi que ele estava vivo e continuava com quatro patas...
João D'Hem
Diário de Bordo
Diário de bordo
Será injusto um homem lutar pela sua pátria? Será tão maléfico o acto de querer ser português? Responde-me, diário! Desculpa. Não tens culpa do que me acontece. Mas, sinceramente, começo a pensar que os que lutam pelo que querem, de forma leal, não são sagrados salvadores. São, sim, julgados pelo destino de forma carrasca.
Sinto-me sujo. Desprezível. Maltratado. Quando choro as minhas lágrimas marcam-me a cara como azulejos pintados de castanho. Sinto a sua falta. Sinto a falta de Guiomar. Dos seus braços. Do seu sorriso. Do seu cheiro. Todos os dias me lembro da promessa que lhe fiz. O pensamento de não a cumprir corrói-me constantemente. Como estará ela? Ainda viverá na nossa casa, no nosso lar? Chorará ela todos os dias por não me ter junto dela? O quanto eu gostava que o destino me levasse para lá! Não importava como, desde que lá estivesse, abraçado ao seu peito.
Tenho medo, sabes? Tenho medo de não a tornar a ver…de não tornar a senti-la nos meus braços.
Enfim… Por hoje já chega de escrever. Agora vou continuar a minha caminhada penosa para mim e invisível para os demais.
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