A Tela da Beleza
Ele chegou a tempo. Entrou pelo salão carregado com o seu material de trabalho. Ouvia-o montar o cavalete e separar as suas tintas, enquanto me preparava. Olhei-me ao espelho. Adorava fazê-lo! Amava fechar os olhos e perseguir, com as pontas dos dedos, todos os meus traços bem definidos. Os meus olhos vivos e espontâneos reflectiam um azul arrebatador. Os meus seios bem desenhados adoptavam a forma do vestido preto que vestira. Ouvia-o cantarolar. Decerto que trazia os cabelos despenteados de uma forma tão estranha como única. Acabei de pôr os antigos brincos de diamantes e ouvi o meu nome. Christine, é o meu nome. Antes de sair do quarto, olhei uma vez mais para o espelho. Estava deslumbrante. Que mais poderia dizer? Era verdade…Entrei no salão. O cenário já estava montado. Apenas uma janela estava aberta, iluminando especialmente a chaise-longue onde iria posar. Ele era, realmente, muito bom no que fazia. Os ângulos, os planos, as imagens, as cores… tudo pensado ao milímetro. Não trocámos palavras. Apenas segui o seu olhar. Sorriu para mim com agrado. Deitei-me cuidadosamente, seguindo as suas instruções. Achou que não estava bem. Dirigiu-se para mim. Tocou-me nos cabelos, colocando-mos atrás das costas. Deitou-me o pescoço numa posição mais confortável. Pediu que pusesse o braço por trás da cabeça. Montou as minhas pernas como um puzzle elegante e sedutor. Estava pronta. Chamou-me musa. Pediu-me para olhar para ele. Deu-me um pouco de água, para que conseguisse aguentar mais tempo sem me mexer. Começou a desenhar-me a carvão. Eu apenas conseguia ver as costas da tela. Os raios novatos do Sol cobriam as minhas pernas agora destapadas. Perdi-me nos meus pensamentos. Imaginei o meu futuro. Como seria eu daqui a uns anos? Esta questão causava-me arrepios. A ideia de envelhecer assustava-me. “ Se eu pudesse ser sempre jovem” era o que eu dizia frequentemente aos meus amigos. Gostava de me manter assim. Bonita. Firme. Jovem. Por isso, por esse milagre daria tudo. O Mundo não está feito para os velhos. Não existem portas abertas para pessoas desgastadas. Por vezes, nem uma janela se abre. As peças de roupa fazem-se para que as jovens estejam na moda e a maquilhagem só é usada de forma natural pelas adolescentes. Para uma mulher velha o conceito “destinar o meu destino” já não existe. Deixa-se levar. Resigna-se à crueldade deste Mundo. A beleza desaparece. O corpo derrete lentamente. O sexo e o prazer deixam de fazer sentido. Deixa-se de ter os melhores homens atrás de nós e começa-se a admirar a beleza das actrizes que invadem as nossas casas através da televisão. Mentem a elas próprias enquanto se elogiam em frente a um espelho. Não! Eu não quero ficar assim! Não quero deixar de ter esta vida. Não quero deixar de ser desejada.
De repente, acordei do pensamento. Ele estava a olhar para mim. Senti que os seus olhos ainda me desejavam. Senti-me quente, de novo. Percebi que já tinha acabado. Levantei-me, um pouco curiosa. O retrato estava simplesmente maravilhoso. Emocionei-me. Uma lágrima escorregou pela minha cara e caiu na tela. Ele apressou-se a apará-la, mas eu parei-lhe o braço. Ele não entendeu. Porém realizou-se algo que eu queria. Que o quadro envelhecesse. Assim, desfigurado, ninguém, mais tarde, me irá reconhecer quando a ironia do destino me retirar o que é meu por direito e a der a alguém que irei observar, sentada num sofá, enquanto minto ao espelho.
João D'Hem
Sem comentários:
Enviar um comentário